Após uma década convivendo com insônia persistente, a médica Dra Andrea Alvarenga encontrou na Cannabis medicinal não apenas uma possibilidade terapêutica, mas o ponto de partida para uma nova frente de atuação profissional.
O que começou como uma busca pessoal por qualidade de sono evoluiu para estudo aprofundado e, mais tarde, para a incorporação criteriosa da terapia canabinoide no cuidado de pacientes com quadros clínicos complexos.“Minha trajetória como prescritora começou há oito anos, a partir da minha própria experiência. Eu tinha dez anos de insônia.
Com a Cannabis, consegui melhorar muito meu sono.” Da experiência pessoal à ampliação clínicaPara alguém com 40 anos de prática clínica, acostumada a conduzir diagnósticos com rigor e responsabilidade, a experiência pessoal não foi suficiente para transformar convicção em prescrição automática. Foi o ponto de partida para estudo aprofundado.“Sempre começamos a terapia com pessoas próximas.
Meu filho foi um dos meus primeiros pacientes”, conta. O que começou de forma cuidadosa rapidamente ganhou complexidade. Vieram crianças com transtorno do espectro autista (TEA), epilepsias, dificuldades escolares importantes. “As mães, muito ansiosas, buscavam uma estratégia que pudesse ajudar no tratamento dos filhos.
Casos mais graves me levaram a estudar profundamente a cannabis e iniciar o uso no consultório.”O movimento seguinte foi quase natural. Pacientes com doenças crônicas e queixas de perda de memória passaram a procurá-la espontaneamente.
Ao acompanhar idosos, Dra Andrea passou a observar melhora não apenas em dores crônicas, mas também em sintomas iniciais de doenças neurodegenerativas como o Alzheimer e Parkinson.“Acabei atendendo muitos pacientes idosos.
São pessoas com múltiplas patologias, e a melhora é visível, tanto nas dores quanto na cognição inicial”, afirma.Hoje, ela também vê espaço para discutir a Cannabis dentro de uma perspectiva de envelhecimento saudável. “Até como protetor do envelhecimento, para envelhecer com mais qualidade, existe espaço para a Cannabis no Brasil.
Mas ainda temos muito a estudar sobre doses, concentrações e tipos de canabinoides para cada paciente.”Qualidade de vida como eixo do cuidadoMulheres no climatério, na peri-menopausa e na menopausa também se tornaram presença constante no consultório.
“A névoa mental, a ansiedade e a insônia relacionadas às alterações hormonais melhoram muito quando o tratamento é bem indicado”, explica.Entre os inúmeros casos acompanhados, um permanece como marco pessoal e profissional.
Uma paciente com câncer de colo uterino metastático, com metástases abdominais e uma lesão dolorosa na musculatura do glúteo que irradiava dor intensa por toda a perna, havia desistido de quimioterapia e radioterapia.“Utilizei doses altas de Cannabis com muito THC. A melhora foi impressionante.
Conseguimos reduzir opioides e, principalmente, fortalecer essa paciente para viver seus últimos momentos de forma mais serena.”Não se tratava de reversão do quadro, mas de qualidade de vida.Da resistência à consolidação terapêuticaAo longo dessa trajetória, Dra Andrea aprendeu que a terapia canabinoide não é um ato isolado. “O tratamento com Cannabis precisa da colaboração de toda a família”, afirma.
Especialmente em crianças e idosos, o suporte familiar é decisivo para a adesão.Ela também reconhece os limites das crenças individuais. “Já tive pacientes que não aceitaram o tratamento por convicções pessoais. Mesmo com toda a explicação científica, não é possível prescrever para quem não acredita.”Se no início enfrentou resistência, hoje percebe mudança significativa. “Sinto uma abertura maior.
Pessoas que antes não acreditavam agora estão mais receptivas.”A procura também mudou de perfil. “Hoje muitos pacientes me procuram porque sabem que sou prescritora e que tenho experiência com Cannabis medicinal.”Ainda assim, Andrea mantém prudência e rigor. Para ela, prescrever Cannabis medicinal exige dedicação contínua.“Prescrever Cannabis é uma arte. Não é para todos.
É para o médico que quer tratar patologias complexas e estar sempre perto do paciente.”Importante! No Brasil, o uso de medicamentos à base de Cannabis é permitido mediante prescrição médica, conforme regulamentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Por isso, caso você ou alguém próximo tenha interesse em incluir canabinoides no plano terapêutico, é fundamental contar com avaliação e acompanhamento profissional.Na plataforma de agendamentos do Cannabis & Saúde, é possível marcar consultas — presenciais ou por telemedicina — com médicos que possuem experiência na prescrição e condução desse tipo de tratamento.
