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O que a ciência diz (de verdade) sobre a Cannabis na Medicina Veterinária

Cannabis & Saúde 14/04/2026 12:26

Nos últimos anos, o uso da Cannabis medicinal na Medicina Veterinária deixou de depender apenas de experiências práticas e passou a ganhar espaço na pesquisa científica. Tutores relatam benefícios, prescrições começam a aparecer na rotina clínica e o interesse pelo tema cresce rapidamente. Mas, afinal, o que já conta com respaldo científico, e o que ainda precisa de mais estudos?

Mamíferos, incluindo cães e gatos, possuem um sistema biológico chamado sistema endocanabinoide, que ajuda a regular funções importantes como dor, inflamação, sono, apetite e comportamento. É justamente por atuar nesse sistema que a Cannabis desperta tanto interesse terapêutico. Entre seus principais compostos estão os chamados fitocanabinoides, como o Canabidiol (CBD) e o Tetrahidrocanabinol (THC).

O THC, apesar de ser o responsável pelos efeitos psicoativos, também possui propriedades importantes, como ação analgésica, antiemética e estimulante do apetite, o que pode ser útil em alguns contextos clínicos, desde que utilizado com cautela em animais. Já o CBD se destaca por não causar efeitos psicoativos relevantes, sendo mais amplamente utilizado na medicina veterinária devido ao seu perfil de segurança.

Além disso, cresce o interesse pelas formulações chamadas full spectrum, que combinam diferentes fitocanabinoides e outros compostos da planta. Acredita-se que essa combinação possa potencializar os efeitos terapêuticos, em um fenômeno conhecido como “efeito entourage” ou efeito comitiva.

Esse conjunto de compostos naturais vem sendo cada vez mais estudado e utilizado como uma alternativa complementar em diversas condições clínicas na Medicina Veterinária, especialmente quando se busca melhorar a qualidade de vida dos animais. Mas é importante entender: ter uma explicação biológica que faça sentido não significa, automaticamente, que o tratamento funcione na prática.

Onde a ciência já traz respostas mais consistentes Entre as diversas aplicações estudadas, o uso dos fitocanabinoides tem se mostrado mais promissor em algumas condições específicas. Dor crônica e osteoartrite Esse é, até o momento, o campo com resultados mais consistentes.

Estudos em cães com osteoartrite mostram melhora na mobilidade, redução da dor e aumento da qualidade de vida quando o CBD é utilizado como parte do tratamento. Esses efeitos parecem estar relacionados à capacidade dos canabinoides de modular a inflamação e a percepção da dor.

Na prática clínica, isso tem permitido reduzir o uso isolado de anti-inflamatórios tradicionais em alguns casos, ou associá-los de forma mais estratégica. Epilepsia A epilepsia é uma das indicações mais conhecidas da Cannabis medicinal, principalmente por conta dos avanços na medicina humana. Na veterinária, porém, os resultados ainda são variáveis.

Alguns estudos mostram redução na frequência das crises, enquanto outros não encontram diferenças tão significativas. Além disso, a resposta pode variar bastante entre os pacientes. Portanto, o uso pode ser considerado, especialmente em casos refratários, mas ainda não substitui os tratamentos convencionais.

Ansiedade e comportamento O uso para ansiedade, como ansiedade de separação, fobias e estresse, é bastante comum na rotina clínica. Isso faz sentido, já que o sistema endocanabinoide também participa da regulação emocional. Nos últimos anos, alguns estudos começaram a investigar esses efeitos de forma mais controlada.

Um exemplo é uma pesquisa publicada na revista Frontiers in Veterinary Science, que avaliou o uso de CBD em cães submetidos a situações estressantes, como ficar sozinhos e passeios de carro, um dos gatilhos de estresse mais comuns na prática veterinária.

Os resultados mostraram que o CBD foi capaz de reduzir alguns sinais de estresse, tanto comportamentais quanto fisiológicos, como níveis de cortisol e indicadores de ansiedade.

Estudos mais recentes, avaliando o uso contínuo de CBD em cães expostos repetidamente ao estresse durante viagens de carro, também observaram redução de comportamentos associados ao estresse, como vocalização, lambedura excessiva e inquietação, além de melhora em alguns parâmetros fisiológicos.

No entanto, esses efeitos não foram uniformes em todos os parâmetros avaliados, e os próprios autores destacam a necessidade de mais pesquisas para compreender melhor o impacto do CBD no comportamento animal. Ou seja, há evidências iniciais interessantes, especialmente em situações de estresse como o transporte, mas ainda faltam estudos mais robustos para confirmar esses efeitos com segurança.

Oncologia e cuidados paliativos Na oncologia veterinária, a cannabis tem ganhado espaço principalmente como suporte ao paciente. Os principais benefícios observados incluem controle da dor, estímulo do apetite, redução de náuseas, melhora do bem-estar geral. Além de potencializarem os efeitos dos quimioterápicos comumente utilizados na prática clínica.

Embora existam estudos sugerindo efeitos antitumorais em laboratório, ainda não há evidência suficiente para afirmar que a cannabis trate o câncer em animais. No entanto, seu papel mais importante hoje é melhorar a qualidade de vida de pacientes com quadros neoplásicos.

Síndrome da disfunção cognitiva A síndrome da disfunção cognitiva (SDC), muitas vezes comparada ao Alzheimer em humanos, é uma condição comum em cães e gatos idosos, caracterizada por alterações de comportamento, desorientação, distúrbios do sono e perda de interação social.

Nos últimos anos, o interesse pelo uso de canabinoides nesses casos tem crescido, principalmente devido ao papel do sistema endocanabinoide na proteção neuronal, na regulação da inflamação e no equilíbrio de neurotransmissores.

Estudos experimentais sugerem que o CBD pode exercer efeitos neuroprotetores, antioxidantes e anti-inflamatórios, mecanismos que, em teoria, poderiam ajudar a retardar a progressão dos sinais cognitivos. Além disso, na prática clínica, alguns veterinários relatam melhora em aspectos como padrão de sono, ansiedade e interação em animais idosos.

No entanto, ainda há escassez de estudos clínicos específicos em cães e gatos com SDC. A maior parte das evidências vem de modelos experimentais ou da medicina humana, o que exige cautela na interpretação dos resultados. Seu uso pode ser considerado como parte de uma abordagem multimodal, especialmente para melhorar qualidade de vida.

Segurança e uso responsável Um dos maiores equívocos é acreditar que, por ser natural, a Cannabis é sempre segura. Na realidade, o uso da Cannabis na medicina veterinária exige mais do que interesse. É preciso critério clínico, conhecimento técnico e acompanhamento adequado.

A escolha da formulação, a definição da dose e o ajuste ao longo do tratamento não são padronizados e podem variar de acordo com a espécie, o peso, a condição clínica e a resposta individual de cada paciente. Além disso, diferentes produtos, como isolados ou formulações full spectrum, apresentam perfis distintos, o que influencia diretamente na condução terapêutica.

Por isso, o acompanhamento por um médico-veterinário é indispensável em todas as etapas do processo. É esse profissional quem avalia a real indicação, integra a Cannabis ao plano terapêutico e monitora a evolução clínica do animal. Outro ponto fundamental é a capacitação.

A prescrição de Cannabis medicinal envolve conhecimentos específicos sobre o sistema endocanabinoide, farmacologia dos canabinoides e particularidades entre espécies, aspectos que ainda não fazem parte de forma ampla da formação tradicional.

Na prática, isso significa que o uso seguro e eficaz da Cannabis depende diretamente de um profissional que tenha formação complementar e atue com base em evidência científica e responsabilidade clínica.

O que ainda precisa avançar Apesar do crescimento do interesse e do uso clínico, a ciência ainda tem lacunas importantes como: poucos estudos com grande número de animais, falta de padronização de doses, diferenças entre formulações (isolado vs. full spectrum), respostas variáveis entre indivíduos. Ou seja, em outras palavras, a Medicina Veterinária ainda está construindo esse conhecimento.

Conclusão: equilíbrio entre ciência e prática A Cannabis na Medicina Veterinária não é uma solução milagrosa, mas também está longe de ser apenas uma tendência sem fundamento. O que temos hoje é um cenário em evolução, existe base científica consistente, há bons resultados em algumas condições, há potencial em várias outras áreas, porém ainda faltam pesquisas mais aprofundadas.

Neste momento, o mais importante é seguir com equilíbrio: aplicar o que a ciência já sustenta, reconhecer os limites do conhecimento atual e continuar avançando com responsabilidade. Referências bibliográficas Carvalho DAS, Teixeira MM. Cannabis uso terapêutico em animais domésticos. Research, Society and Development, 2025. Di Salvo A et al.

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Créditos: Cannabis & Saúde.