Diagnosticada com autismo nível 2 de suporte por volta dos dois anos, Bibi teve seu desenvolvimento acompanhado de perto desde muito cedo. Antes mesmo da confirmação clínica, alguns sinais já haviam chamado a atenção dentro da própria família, antecipando um percurso que, mais tarde, exigiria organização, constância e decisões cuidadosas ao longo do caminho.
Foi uma tia da criança, que é psicóloga, quem primeiro observou que algo destoava do esperado ainda nos primeiros meses de vida. Por volta dos oito meses, ela alertou a mãe, Renata Sitta, sobre a possível necessidade de acompanhamento. Embora também tenha ponderado que, naquele momento, seria difícil obter uma validação médica precisa.
A orientação foi aguardar até que a criança atingisse cerca de um ano e meio a dois anos para buscar uma avaliação mais conclusiva. O que chamava atenção não era um sinal clássico frequentemente associado ao transtorno, como andar na ponta dos pés. No caso de Bibi, a dificuldade estava justamente na sustentação do corpo: ela não conseguia firmar o passo, apresentando um atraso importante na marcha.
A primeira busca foi por uma ortopedista infantil, que diagnosticou frouxidão ligamentar e indicou fisioterapia. Ainda assim, a hipótese de uma condição neurológica não foi descartada. O diagnóstico e a construção de uma rotina estruturada Em meio às limitações impostas pela pandemia, a investigação seguiu. A consulta com a neuropediatra foi, segundo a mãe, longa e minuciosa e durou cerca de três horas.
Enfim, o diagnóstico veio: autismo nível 2 de suporte. Renata descreve o momento com um praticidade ímpar. Afinal, mãe solo e com uma rotina de trabalho ativa como professora, a resposta precisava ser imediata e pragmática. “Não tinha muito tempo para processar.
Eu tinha que organizar o que o que precisava ser feito, resume. Constância: o elemento central do cuidado A partir dali, Bibi passou a seguir uma rotina intensa de terapias: fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, acompanhamento psicológico e psicopedagógico. Com o tempo, a fisioterapia deixou de ser necessária, mas as demais intervenções foram mantidas, com ajustes de profissionais quando necessário.
Mais do que a variedade de abordagens, um princípio passou a guiar tudo para essa mãe: a constância. “Ela nunca parou. E isso faz diferença”, resume a mãe. Renata Sitta, mãe da Bibi Entre o receio e a informação: o caminho até a Cannabis medicinal O contato com a Cannabis medicinal surgiu inicialmente de forma distante. Apesar de já ter lido sobre o tema, Renata admite que a ideia carregava resistência.
Ela tinha um receio de que essa ferramenta pudesse, de alguma forma, interferi na individualidade da filha . “Alterar quem ela é’, diz a mãe. A mudança veio com o aprofundamento na informação. A busca por médicos prescritores começou, mas sem decisões imediatas. Consultas foram consideradas, algumas até agendadas, mas faltava segurança necessária. Foi a indicação de outra mãe que mudou esse cenário.
A consulta com a Dra Vanessa Matalobos trouxe um elemento que, até então, ainda não havia aparecido com tanta clareza: previsibilidade. Segundo Renata, a médica foi direta ao explicar o que o tratamento poderia — e o que não poderia — oferecer. “Ela deixou muito claro que não é milagre.” Essa abordagem foi decisiva.
Para a mãe, qualquer intervenção precisaria respeitar um ponto central no desenvolvimento da filha: a necessidade de rotina, repetição e estabilidade. Leia também: “A gente sempre soube que ela era capaz de evoluir, de ter mais autonomia.
A Cannabis acelerou e potencializou esse processo” Introdução da Cannabis e a manutenção da base terapêutica A entrada da Cannabis na rotina foi feita de forma gradual, sem romper com o que já estava estruturado. Bibi nunca havia utilizado medicações como risperidona ou outros fármacos comuns no manejo do autismo — até então, o cuidado estava integralmente baseado nas terapias.
Atualmente, além da Cannabis medicinal, ela faz uso de uma medicação manipulada para auxiliar no sono, uma dificuldade frequente dentro do espectro. A lógica do tratamento, no entanto, permaneceu a mesma: nada substitui a base construída ao longo dos anos.
Mais abertura para o mundo: mudanças no comportamento e na interação Os efeitos mais perceptíveis surgiram no comportamento e na forma como Bibi passou a se relacionar com o entorno. Descrita pela mãe como uma criança que precisa de previsibilidade, mudanças sempre foram um ponto sensível. Antes, qualquer negativa, mesmo quando explicada, era difícil de ser aceita.
Hoje, há uma diferença importante: Bibi ainda precisa compreender o motivo das decisões, mas já consegue lidar melhor com frustrações. A receptividade aumentou. Ela também se tornou mais afetiva. A demonstração de carinho, antes mais restrita, passou a acontecer com mais naturalidade. Comunicação e socialização: avanços consistentes Outro eixo de mudança foi a comunicação.
Com diagnóstico de mutismo seletivo, Bibi já possuía fala funcional, mas limitada a contextos específicos. Com o avanço do tratamento, essa comunicação se expandiu. “Hoje ela já consegue formar frases completas, com sentido”, relata a mãe, que narra um episódio que para ela foi bastante marcante. “Depois que ela começou a tomar o CBD, um dia saímos da escola e fomos ao shopping.
Quando desceu do carro, ela falou uma frase inteira: ‘Hoje eu vou comprar uma coisa azul’. Eu chorei, abracei ela e comprei tudo azul que ela pediu”, conta. A socialização acompanhou esse movimento. Bibi passou a se mostrar mais aberta ao contato e às interações, ampliando sua participação no ambiente ao redor.
A concentração também apresentou melhora, “sempre associada à manutenção de uma rotina estruturada”, lembra a mãe Entre avanços e limites: o que ainda está em construção Nem todos os desafios foram superados. A seletividade alimentar permanece como um ponto de atenção, embora com avanços: Bibi passou a tolerar a presença de alimentos que antes sequer aceitava por perto.
A rigidez diante de mudanças ainda existe, característica que a mãe descreve, com leve humor, ao dizer que a filha “é como uma senhorinha”. Mas há diferença na forma como essas dificuldades se apresentam hoje. Para Renata, o principal aprendizado ao longo desse processo é claro: não há soluções isoladas.
A Cannabis medicinal se soma a uma estrutura já existente, potencializando avanços — mas não substituindo o que foi construído com consistência ao longo dos anos. “Não é milagre. É constância. E a constância vale mais do que qualquer coisa.” É nesse equilíbrio (entre intervenção, rotina e tempo) que Bibi segue avançando.
Não em saltos abruptos, mas em mudanças que se sustentam, se acumulam e redesenham, aos poucos, sua forma de estar no mundo. Importante! Aqui no Brasil, o uso de medicamentos à base de Cannabis é regulamentado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e depende de prescrição médica.
A indicação desse tipo de terapia deve ser feita por um profissional com experiência na prescrição de canabinoides, responsável por avaliar cada caso de forma individualizada e definir a conduta mais adequada. Na plataforma do Cannabis & Saúde, é possível agendar consultas com médicos para acompanhar esse tipo de abordagem terapêutica.
