Pesquisadores identificaram um possível mecanismo pelo qual o canabidiol (CBD) pode interferir em processos relacionados à fibrose cardíaca na distrofia muscular de Duchenne. Em testes realizados com células humanas, o CBD reduziu sinais associados à formação de tecido fibroso e ativou uma enzima ligada à proteção das células contra o estresse oxidativo.
O estudo foi publicado na revista científica Redox Biology por pesquisadores da França e da Itália. O trabalho investigou células cardíacas de pacientes com distrofia muscular de Duchenne e de indivíduos saudáveis. Os resultados apontam a enzima heme oxigenase-1 (HO-1) como uma peça importante na ação observada do CBD.
Quando os cientistas bloquearam essa enzima, o canabidiol perdeu grande parte de sua capacidade de reduzir a ativação dos fibroblastos. Como a distrofia de Duchenne afeta o coração A distrofia muscular de Duchenne é uma doença genética causada por alterações no gene responsável pela produção de distrofina, uma proteína importante para a estrutura das células musculares.
A ausência de distrofina provoca danos musculares progressivos. Isso não ocorre apenas nos músculos responsáveis pelos movimentos do corpo: órgãos como o coração também podem ser afetados. De acordo com os pesquisadores, a cardiomiopatia associada à Duchenne pode começar ainda na primeira década de vida.
Com a progressão da doença, parte do tecido muscular do coração pode ser substituído por tecido fibroso e gorduroso, afetando a função cardíaca. É nesse contexto que os resultados do estudo se destacam. Ao reduzir a ativação dos fibroblastos cardíacos, o CBD mostrou capacidade de interferir em um dos processos celulares associados à formação da fibrose.
Segundo os pesquisadores, esse mecanismo pode ser relevante para futuras investigações sobre a fibrose cardíaca na distrofia muscular de Duchenne. Como o CBD agiu sobre as células No estudo, os pesquisadores utilizaram fibroblastos. Essas células ajudam a formar e manter a estrutura dos tecidos, mas sua ativação excessiva pode contribuir para a formação de cicatrizes no coração.
As células vieram de pessoas saudáveis e de pacientes com distrofia muscular de Duchenne. Em laboratório, os fibroblastos foram estimulados para favorecer sua transformação em células com características que favorecem a formação de fibrose. Nos experimentos, o CBD conseguiu diminuir essa resposta.
Os pesquisadores observaram redução de duas substâncias usadas como marcadores de ativação dos fibroblastos: a alfa-SMA e o colágeno tipo I. O efeito foi observado tanto nas células de indivíduos saudáveis quanto naquelas originadas de pacientes com Duchenne. A enzima envolvida no efeito do CBD Um dos principais resultados do trabalho envolve os efeitos do CBD sobre a enzima HO-1.
Essa enzima participa dos mecanismos naturais de proteção das células contra o estresse oxidativo. Nos experimentos, o canabidiol provocou um aumento expressivo da produção de HO-1. Esse aumento ocorreu de acordo com o tempo de exposição e com a concentração de CBD utilizada. Além disso, o canabinoide reduziu os níveis de espécies reativas de oxigênio (ROS).
Também aumentou a quantidade de glutationa reduzida (GSH), substância que faz parte do sistema de defesa antioxidante das células. Para verificar se a HO-1 estava realmente relacionada ao efeito sobre os fibroblastos, os cientistas bloquearam a atividade da enzima farmacologicamente. Quando isso aconteceu, o CBD deixou de conseguir inibir adequadamente a ativação dos fibroblastos.
Os autores consideram, portanto, que a HO-1 funciona como uma peça importante no efeito contra a formação de fibrose do CBD. Efeito não parece depender principalmente dos receptores CB1 e CB2 Em outra etapa do estudo, os pesquisadores investigaram a participação dos receptores canabinoides CB1 e CB2.
Esses receptores fazem parte do sistema endocanabinoide e são frequentemente relacionados aos efeitos terapêuticos dos compostos da Cannabis no organismo. No entanto, os resultados sugerem que o mecanismo observado não depende principalmente deles. No estudo, o bloqueio desses receptores não impediu que o canabidiol elevasse a produção de HO-1.
Ainda assim, os autores ressaltam que a participação de CB1 e CB2 não deve ser completamente descartada. A atuação desses receptores pode variar conforme o órgão e o tipo de célula. O que o estudo ainda não consegue responder Os autores afirmam que o potencial terapêutico do CBD observado no estudo pode inspirar novas pesquisas sobre a distrofia muscular de Duchenne.
O estudo não avaliou resultados clínicos, como a melhora da função cardíaca ou a redução da progressão da cardiomiopatia. Ainda assim, os resultados abrem uma nova frente para a investigação da relação entre os canabinoides e a fibrose cardíaca na distrofia muscular. Também será necessário aprofundar os estudos sobre a ligação entre CBD e HO-1.
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