Cães que vivem em abrigo e esperam por adoção estão expostos a uma combinação de estímulos que pode favorecer o estresse: ambiente diferente, restrição de espaço, presença de outros animais e mudanças na rotina.
Foi nesse cenário que pesquisadores franceses decidiram investigar os efeitos de uma combinação de canabidiol (CBD) e ácido canabidiólico (CBDA) sobre o comportamento e o nível de atividade de cães com histórico de ansiedade ou reatividade. O que tornou esse trabalho peculiar foi o uso de câmeras de vídeo e colares equipados com sensores de movimento. A mudança no comportamento foi mais evidente durante a noite.
Os autores consideram que esse resultado sugere um efeito calmante, e não simplesmente sedação. Mas destacam que essa hipótese ainda precisa ser confirmada. Um estudo em abrigo para animais abandonados A pesquisa foi realizada no refúgio da organização sem fins lucrativos Agir pour la Vie Animale, na França.
Ao todo, 17 cães com histórico de comportamentos reativos relacionados à ansiedade ou outros problemas comportamentais foram selecionados para o estudo. Sete cães receberam o produto com CBD e CBDA, enquanto dez fizeram parte do grupo placebo. Os pesquisadores buscaram manter as condições próximas à rotina habitual do abrigo, sem provocar artificialmente uma situação de estresse.
O que havia no produto dado aos cães O produto utilizado era um extrato com CBD e CBDA em quantidades aproximadamente iguais, além de pequenas quantidades de outros canabinoides e terpenos. O CBD é um canabinoide amplamente estudado por seus possíveis efeitos terapêuticos em humanos e animais.
Já o CBDA é sua forma ácida e precursora: ele está presente na planta antes de transformações químicas provocadas, por exemplo, pelo aquecimento. Os cães receberam o produto em cápsulas, dividido em duas doses diárias. A dose precisou ser reduzida durante o estudo No início, os cães receberam uma dose diária de cerca de 10 mg/kg de CBD e CBDA combinados.
Durante essa fase, cuidadores relataram redução da atividade em alguns cães. Por precaução, os pesquisadores reduziram a dose para cerca de 6 mg/kg por dia. Essa foi a dose usada durante o restante do estudo, e os cães pareceram tolerá-la melhor. Devido à rotina do abrigo, o intervalo entre as duas doses diárias ficou em torno de sete horas.
Seis semanas acompanhando a rotina dos animais O acompanhamento durou aproximadamente seis semanas. Os animais foram observados por cerca de duas semanas antes da administração de CBD e CBDA, receberam o produto durante aproximadamente quatro semanas e foram avaliados novamente ao final desse período.
As gravações das câmeras foram analisadas em busca de comportamentos como: • tempo de repouso; • inatividade; • movimentação; • latidos. Nas imagens analisadas, nenhuma dessas medidas apresentou diferença estatisticamente significativa entre os grupos tratados com canabinoides e com placebo. Sensores encontraram mudanças que as câmeras não mostraram Parte dos cães também usou um colar equipado com acelerômetro.
Acelerômetros são sensores capazes de detectar movimento e estão presentes em equipamentos como smartphones, smartwatches e automóveis. No estudo, o equipamento classificava a atividade dos animais em quatro níveis: repouso, atividade baixa, média e alta. Foi justamente nesse monitoramento contínuo que os efeitos dos canabinoides apareceram com mais clareza.
Depois do tratamento, os cães que receberam CBD e CBDA apresentaram: • aumento do tempo de repouso; • redução da atividade baixa; • redução da atividade média; • redução da atividade alta. Entre os cachorros tratados, o tempo mediano de repouso registrado passou de aproximadamente 46,2 para 52,8 minutos por hora. Ao mesmo tempo, a atividade média caiu de 6,14 para 3,71 minutos por hora.
A atividade alta caiu de 0,30 para 0,12 minuto por hora. Essas mudanças não foram observadas no grupo placebo. A diferença apareceu principalmente à noite Ao observar os registros em diferentes horários do dia, a mudança na atividade foi mais visível entre 17h e 6h. De acordo com os pesquisadores, é nesse período que os estímulos externos do ambiente tendem a diminuir.
Os autores levantaram a hipótese de que cachorros em abrigo aguardando adoção possam continuar excessivamente vigilantes ou ativos mesmo quando há poucos estímulos ao redor. Nesse contexto, a redução da atividade noturna poderia significar que os animais estavam conseguindo relaxar e repousar melhor.
Isso também ajuda a explicar por que os sensores identificaram uma mudança que não apareceu claramente nas imagens das câmeras. As gravações analisavam períodos relativamente curtos durante o dia. Os acelerômetros, por outro lado, acompanharam os cães continuamente durante 48 horas. Assim, também registravam o que acontecia quando o abrigo estava escuro. Efeito calmante ou simplesmente sedação?
Uma possível explicação para esses efeitos seria que o CBD e o CBDA simplesmente deixaram os animais sedados. No entanto, os autores consideram que o padrão observado seria mais compatível com um efeito calmante. Os sensores mediram movimento e repouso, mas não mediram diretamente ansiedade, bem-estar ou qualidade do sono.
Portanto, novos estudos são necessários para investigar se os cães estavam menos ansiosos e se passaram a dormir melhor. CBD e CBDA não substituem outros cuidados Mesmo diante dos resultados encontrados pelos sensores, os pesquisadores não propõem o uso do CBD e do CBDA de uma forma isolada para o estresse de cachorros em abrigos aguardando por adoção.
Eles consideram que os canabinoides poderiam ser uma ferramenta complementar dentro de uma abordagem mais ampla de bem-estar animal. Essa abordagem incluiria também enriquecimento ambiental, alojamento em boas condições e intervenções comportamentais. Também será necessário entender quais animais têm maior probabilidade de responder ao tratamento e quais doses e horários de administração seriam mais adequados.
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