Celebrado em 14 de setembro, o Dia Mundial da Dermatite Atópica chama atenção para uma doença que pode provocar coceira intensa, ressecamento e lesões na pele. Além dos sintomas físicos, a condição pode afetar a saúde mental, a concentração e a vida social. No Brasil, desde 2024, também é celebrado, em 23 de setembro, o Dia Nacional da Conscientização sobre a Dermatite Atópica.
Nos últimos anos, pesquisadores também começaram a investigar se compostos da Cannabis, como o canabidiol (CBD) e o canabigerol (CBG), podem ter algum papel no controle dos sintomas da doença. Os resultados iniciais despertam interesse, principalmente por possíveis efeitos sobre a inflamação, a coceira e a hidratação da pele. O que é dermatite atópica? A dermatite atópica é uma doença inflamatória crônica da pele.
Ela costuma se manifestar por ressecamento, vermelhidão, descamação e, principalmente, coceira intensa. A doença não é contagiosa e pode aparecer em diferentes fases da vida, embora seja mais frequente na infância.
Um dos principais problemas é que a coceira pode provocar um ciclo difícil de interromper: a pessoa coça a região afetada, machuca a pele e aumenta a irritação, o que pode gerar ainda mais vontade de coçar. Além das manifestações na pele, a dermatite atópica pode afetar o sono, a concentração, o rendimento escolar e a qualidade de vida. Como é feito o tratamento da dermatite atópica?
A hidratação frequente da pele costuma ser uma das medidas básicas. Alguns cuidados cotidianos, como evitar banhos muito quentes e prolongados, também podem ajudar a preservar a barreira de proteção da pele. Durante as crises, médicos podem indicar medicamentos aplicados diretamente nas lesões, incluindo corticosteroides tópicos e outros anti-inflamatórios.
Casos moderados ou graves podem exigir medicamentos que atuam no sistema imunológico, inclusive tratamentos sistêmicos e medicamentos biológicos. Nos últimos anos, a pesquisa sobre novos tratamentos avançou. Entre as substâncias que passaram a ser investigadas estão os canabinoides. Cannabis medicinal pode ajudar na dermatite atópica?
Ainda não existem evidências clínicas suficientes para afirmar que medicamentos à base de Cannabis façam parte do tratamento padrão da dermatite atópica. Há, porém, pesquisas indicando que os canabinoides podem atuar em mecanismos envolvidos na inflamação, na coceira e na barreira de proteção da pele.
Nesse sentido, os compostos da Cannabis poderiam complementar os tratamentos convencionais, especialmente quando esses tratamentos convencionais não apresentam resultado satisfatório. Uma revisão de estudos realizada por pesquisadores brasileiros, já abordada pelo Cannabis & Saúde, identificou possíveis propriedades anti-inflamatórias, anticoceira, antioxidantes e antimicrobianas de diferentes compostos da planta.
Os autores também encontraram indícios de que essas substâncias poderiam influenciar processos relacionados à hidratação e à proteção da pele. Por que os canabinoides são estudados para doenças de pele? As células da pele possuem componentes do sistema endocanabinoide, um sistema formado por moléculas, receptores e enzimas que participa da regulação de diferentes funções do organismo.
Na pele, esse sistema participa de processos relacionados à inflamação, à sensibilidade e ao funcionamento das células que formam sua barreira de proteção. Por isso, pesquisadores procuram entender como substâncias capazes de interferir nesse sistema, incluindo canabinoides da Cannabis, poderiam ajudar em doenças da pele. O que os estudos mostram sobre CBD?
Um dos estudos já apresentados pelo Cannabis & Saúde comparou uma formulação tópica de CBD com hidrocortisona, um corticosteroide utilizado para reduzir processos inflamatórios. Os resultados indicaram que o CBD teve efeitos relevantes sobre inflamação e inchaço. A hidrocortisona, por outro lado, apresentou melhor resultado sobre a coceira em determinados testes.
Por isso, esse estudo não permite concluir que o CBD seja simplesmente “melhor” do que um corticosteroide. O que aconteceu quando CBD e CBG foram usados juntos Outra pesquisa avaliou uma pomada contendo 30% de CBD, 5% de CBG e óleo de semente de cânhamo. O estudo contou com nove participantes acompanhados por oito semanas.
Os pesquisadores observaram melhora em indicadores como hidratação da pele, vermelhidão, perda de água e coceira. O resultado é promissor, mas ainda precisa ser interpretado com cautela. São necessários ensaios maiores e com períodos de acompanhamento mais longos. E o CBG?
Em um estudo pré-clínico, pesquisadores observaram efeitos do CBG sobre a inflamação, o espessamento da pele e determinados marcadores associados à resposta inflamatória. Estudos pré-clínicos são realizados antes de grandes testes em seres humanos. Eles são importantes para esclarecer como determinados mecanismos funcionam e levantar hipóteses, mas não provam que o mesmo efeito ocorrerá em pacientes.
Por isso, os resultados com CBG ainda devem ser vistos como um sinal verde para novas pesquisas. Óleo de semente de cânhamo é a mesma coisa que CBD? Não. Essa diferença é especialmente importante quando se fala em produtos para a pele. O óleo de semente de cânhamo é obtido principalmente das sementes da planta e não contém quantidades de canabinoides capazes de causar efeitos terapêuticos.
Por isso, não deve ser confundido com óleos ricos em CBD ou outros compostos da planta. Um relato de caso noticiado pelo Cannabis & Saúde descreveu um paciente de 23 anos que utilizou, durante três meses, uma emulsão contendo óleo de semente de cânhamo, ureia, vaselina e água.
Durante esse período, foram relatadas melhoras no ressecamento, na vermelhidão, na coceira e no sono, além de menor necessidade de corticosteroides. Mas há limitações importantes: tratava-se de apenas uma pessoa, e a fórmula utilizada continha vários ingredientes. Cannabis medicinal pode reduzir a coceira? Alguns estudos sugerem melhora da coceira com determinadas formulações contendo canabinoides.
Outros resultados mostram que medicamentos convencionais podem ter desempenho melhor nesse sintoma específico. Isso significa que ainda não é possível afirmar, de maneira geral, que o CBD ou outro canabinoide reduz a coceira em pessoas com dermatite atópica. Os efeitos podem depender da substância, da concentração utilizada, da formulação e das características dos pacientes. O que ainda falta descobrir?
Os cientistas ainda precisam identificar quais canabinoides poderiam ser mais úteis, quais concentrações seriam adequadas, por quanto tempo deveriam ser utilizados e quais pacientes poderiam se beneficiar mais. Também são necessários mais dados sobre possíveis reações adversas, irritação da pele e segurança no uso prolongado.
Outra lacuna importante envolve crianças, uma população em que a dermatite atópica é frequente e que exige cuidados especiais em qualquer tratamento. A diferença entre potencial e tratamento comprovado O Dia Mundial da Dermatite Atópica oferece uma oportunidade para ampliar o conhecimento sobre uma doença que pode afetar muito mais do que a aparência da pele.
A pesquisa com canabinoides acrescenta uma nova frente de investigação e já produziu resultados que justificam novos estudos. Ao mesmo tempo, é importante distinguir potencial científico de tratamento comprovado.
Até que estudos clínicos maiores forneçam respostas mais claras, CBD, CBG e outros compostos da Cannabis devem ser apresentados como alternativas em investigação, e não como substitutos automáticos dos tratamentos atualmente utilizados.
Para quem convive com dermatite atópica, o reconhecimento dos sintomas, o diagnóstico adequado e o acompanhamento por profissional de saúde continuam sendo fundamentais para controlar as crises e reduzir o impacto da doença na qualidade de vida. Como funciona o acesso à medicamentos à base de Cannabis no Brasil?
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis com prescrição médica. A avaliação individual continua sendo uma etapa essencial para garantir a segurança e a eficácia do tratamento. Portanto, aqueles que desejam incluir derivados da planta na rotina de cuidado devem buscar orientação profissional.
Por meio da plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com médicos experientes nesse tipo de abordagem.
