A Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) está buscando voluntários com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) para participar de um estudo clínico inédito no Brasil. A pesquisa vai investigar os efeitos do canabigerol (CBG), um dos compostos da planta Cannabis, em sintomas como desatenção, impulsividade e regulação emocional em adolescentes diagnosticados com TDAH.
As consultas serão realizadas online, o que permite a participação de pessoas de qualquer município de Santa Catarina. O estudo já tem aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Unisul. Por que estudar Cannabis para o TDAH O TDAH é um dos transtornos do neurodesenvolvimento mais comuns na infância e adolescência.
Apesar do grande número de famílias que relatam melhora dos sintomas com o uso de medicamentos à base de Cannabis, ainda há poucos ensaios clínicos rigorosos para confirmar ou refutar essas impressões.
O professor Rafael Mariano de Bitencourt, coordenador do Laboratório de Neurociência Comportamental (LabNeC) da Unisul e responsável pela pesquisa, explica a motivação para o estudo: O estudo nasce do encontro entre observação clínica e plausibilidade neurobiológica.
Primeiro, a prática clínica: com observações de pacientes e famílias relatando possíveis benefícios do uso de formulações à base de Cannabis em sintomas ligados à atenção, impulsividade, regulação emocional e sono.
Segundo, a base teórica: hoje já sabemos que o sistema endocanabinoide participa de funções cerebrais que dialogam diretamente com os aspectos do TDAH.” Rafael Mariano de Bitencourt coordena o LabNeC, na UNISUL | Foto: Divulgação O sistema endocanabinoide é uma rede de receptores presente no cérebro e em outros órgãos. Ele regula funções como humor, apetite e resposta ao estresse.
É por meio desse sistema que compostos da Cannabis exercem boa parte dos seus efeitos no organismo. Por que o foco no canabigerol (CBG) A maioria dos estudos sobre Cannabis e TDAH até hoje utilizou canabidiol (CBD) ou ∆9-tetrahidrocanabinol (THC) como compostos principais. O estudo da Unisul chama atenção por se propor a usar uma formulação com vários compostos da planta (amplo espectro) rica em CBG.
O CBG é um canabinoide ainda pouco estudado em ensaios clínicos com humanos. O professor Bitencourt explicou a escolha: Buscamos um fitocanabinoide com potencial de modular atenção, comportamento e regulação emocional, dentro de uma formulação que preserve a complexidade farmacológica do extrato, mas com foco específico nesse composto.
É justamente essa combinação entre plausibilidade biológica e caráter ainda pouco explorado clinicamente que torna o estudo especialmente inovador.” Como o estudo será feito O estudo terá duração de 12 semanas. Os sintomas de TDAH serão medidos pela escala SNAP-IV, ferramenta de avaliação amplamente usada, aplicada em três momentos: no início do estudo, na sexta semana e ao final de 12 semanas.
Além dos sintomas principais, a pesquisa também vai acompanhar outros aspectos da vida dos participantes e de seus responsáveis, por meio de instrumentos que avaliam: • Qualidade de vida do responsável (questionário SF-36) • Sono do adolescente • Sintomas emocionais como ansiedade e depressão (escala EADS-C-21) • Efeitos colaterais ao longo do tratamento Quem pode participar do estudo Os critérios para inclusão no estudo são: • Adolescentes entre 12 e 17 anos • Diagnóstico prévio de TDAH • Residentes no estado de Santa Catarina • Que não tenham usado medicamentos à base de Cannabis nos últimos 30 dias Adolescentes com diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) não poderão participar desta pesquisa.
Como se inscrever na pesquisa O primeiro passo é preencher um formulário de triagem online em https://forms.gle/aJjyGtdwjx7TjfJe6 O preenchimento não garante a participação. Após a triagem, a equipe de pesquisa entrará em contato com as famílias dos adolescentes elegíveis para as próximas etapas.
O que já se sabe sobre canabigerol e TDAH O professor Rafael considera a pesquisa sobre canabigerol para os sintomas do TDAH inovadora: Na área da Cannabis medicinal, ainda convivemos com uma situação em que há muitos relatos clínicos promissores, mas relativamente poucos ensaios clínicos, randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo.
No caso do TDAH, e especialmente com uma formulação rica em CBG, estamos falando de uma proposta bastante pioneira.” O estudo da Unisul pretende preencher essa lacuna de estudos com rigor metodológico. Outras pesquisas do laboratório A pesquisa faz parte de uma linha mais ampla de estudos do LabNeC.
O grupo também conduz ensaios clínicos sobre depressão, cicatrização de feridas neuropáticas e qualidade de vida em idosos, além de estudos pré-clínicos com modelos animais de sepse e obesidade. Impacto das novas regras da Anvisa O estudo da Unisul foi planejado antes das novas regulamentações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para Cannabis medicinal, publicadas em fevereiro de 2026.
Ainda assim, o professor avalia o novo marco regulatório de forma positiva: Esse novo cenário regulatório tende a favorecer a produção de conhecimento no Brasil, dar mais visibilidade institucional e reduzir parte da insegurança regulatória que historicamente dificultava a pesquisa.” Como utilizar medicamentos à base de Cannabis no Brasil No Brasil, a Anvisa autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis sob prescrição médica.
Pessoas com TDAH podem incluir canabinoides no tratamento, desde que haja a recomendação de um especialista. Portanto, se você ou alguém próximo deseja incluir derivados da planta na rotina de cuidados, busque orientação profissional. Por meio da plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com médicos experientes nessa terapia.
