Um estudo clínico realizado nos Países Baixos investigou a interação medicamentosa entre canabidiol (CBD) e o antidepressivo amitriptilina.
A pesquisa foi publicada recentemente no British Journal of Clinical Pharmacology e indica que o uso do canabinoide por via oral, em doses baixas, pode aumentar a concentração do antidepressivo no organismo.No experimento, 12 voluntários saudáveis receberam 25 mg de amitriptilina isoladamente.
Em outro momento, tomaram a mesma dose do medicamento após ingerirem 30 mg de CBD.Os resultados chamaram atenção: com o CBD, a exposição total à amitriptilina aumentou em 13% e a concentração máxima no sangue subiu 17%.
Mesmo sendo uma única dose de CBD, o efeito foi estatisticamente significativo.O que é a amitriptilina e por que a interação preocupaA amitriptilina é um antidepressivo tricíclico usado há décadas na prática clínica.
Além do tratamento da depressão, suas principais indicações são:• Dor neuropática (causada por lesão nos nervos)• Enxaqueca• Fibromialgia• Distúrbios do sonoÉ um medicamento eficaz, mas que possui uma janela terapêutica pequena.
Ou seja, pequenas variações na concentração sanguínea podem aumentar o risco de efeitos adversos.Entre os possíveis efeitos colaterais estão:• Sonolência intensa• Tontura• Queda de pressão• Alterações no ritmo cardíacoPor isso, qualquer fator que aumente sua concentração no organismo merece atenção.Como ocorre a interação no organismoDe acordo com o estudo, o aumento da quantidade de amitriptilina no corpo quando combinada com o CBD ocorreu por um mecanismo chamado inibição enzimática.Os produtos à base de canabidiol para uso oral são metalizados no fígado por uma enzima chamada CYP2C19, que também é responsável por metabolizar a amitriptilina.Quando essa enzima também está metabolizando o CBD:• A amitriptilina é metabolizada mais lentamente;• Permanece mais tempo na corrente sanguínea;• Atinge níveis mais altos de concentração no sangue.Comparação com o tramadolAlém da amitriptilina, os pesquisadores também avaliaram a interação medicamentosa do CBD com o analgésico tramadol, frequentemente prescrito para dor moderada a intensa.Neste caso, os resultados foram diferentes.O estudo não encontrou alterações clinicamente significativas na exposição total ao tramadol nem em seu principal metabólito ativo.
Houve um pequeno aumento na concentração máxima, mas sem relevância estatística.Portanto, dentro das doses testadas (30 mg), o impacto do CBD foi relevante para a amitriptilina, mas não para o tramadol.Contexto de uso do CBDNos Países Baixos, onde o estudo foi realizado, produtos com CBD são amplamente comercializados como suplemento alimentar.
A dose utilizada pelos pesquisadores era semelhante à encontrada em muitos itens vendidos sem prescrição.Além disso, profissionais da saúde têm prescrito medicamentos à base de canabidiol em diferentes países como tratamento complementar para:• Dores crônicas;• Transtornos de ansiedade;• Distúrbios do sono;• Depressão.Justamente por isso, o risco de interação medicamentosa com antidepressivos como a amitriptilina se torna ainda mais relevante.
Muitos pacientes podem estar combinando as duas substâncias sem saber que existe interação metabólica.O que o estudo indica na práticaO estudo mostra que 30 mg de CBD já são suficientes para alterar o metabolismo de um medicamento.
Portanto, pacientes que usam antidepressivos tricíclicos devem informar seus profissionais de saúde caso utilizem produtos orais à base de Cannabis.Dependendo do caso, pode ser necessário:• Ajustar a dose de amitriptilina;• Monitorar efeitos adversos;• Acompanhar níveis clínicos com mais atenção.Questões que ainda precisam de respostaOs pesquisadores destacaram que algumas questões continuam em aberto:• Uso contínuo: o efeito da interação pode ser maior com uso diário frequente.• Idosos e pessoas com metabolismo lento: o impacto pode ser mais intenso nesses grupos.• Doses altas: em tratamentos com doses maiores, a interação pode se ampliar.O uso de produtos à base de CBD no BrasilNo Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso de medicamentos à base de canabidiol sob prescrição médica.Embora o CBD seja frequentemente visto como uma alternativa “natural”, o estudo reforça que ele pode interferir no metabolismo de medicamentos convencionais e isso exige atenção.Portanto, qualquer pessoa interessada em incluir medicamentos à base de Cannabis no tratamento deve buscar orientação médica.
Na plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com profissionais experientes nesse tipo de abordagem.
