Nos últimos anos, pesquisadores vêm investigando o potencial antimicrobiano dos compostos da Cannabis e suas possíveis aplicações na odontologia.
Pesquisas anteriores já demonstraram que canabinoides, como o canabidiol (CBD), são capazes de inibir bactérias associadas a doenças periodontais, como gengivite e periodontite, com resultados comparáveis aos das abordagens convencionais.Agora, um novo estudo avançou nesse campo ao testar os efeitos do ∆9-tetrahidrocanabinol (THC) sobre a Streptococcus mutans, a principal bactéria envolvida na formação da cárie dentária.
Os resultados indicam que o THC pode reduzir vários fatores que tornam essa bactéria tão prejudicial à saúde bucal.A vilã por trás da cárie: a Streptococcus mutansA Streptococcus mutans vive naturalmente na boca, mas se torna um problema quando encontra açúcares em excesso. Essa bactéria transforma esses açúcares em ácidos, que diminuem o pH da boca e desgastam o esmalte dos dentes.
Com o tempo, esse processo leva à formação das cáries.Além disso, essa bactéria forma biofilmes, estruturas que a protegem e dificultam a ação de escovação, fio dental e produtos antimicrobianos.Testando o THC em laboratórioOs pesquisadores realizaram um estudo em laboratório, para analisar como diferentes concentrações de THC afetariam a S.
mutans em várias situações:• Crescimento da bactéria isolada• Formação da placa bacteriana (biofilme)• Atividade metabólica do biofilme já formado• Produção de ácidos• Integridade da membrana celular da bactériaPara isso, os cientistas utilizaram testes padronizados da microbiologia, além de corantes fluorescentes que permitem diferenciar bactérias vivas e mortas e medir sua atividade.Como o THC impactou a bactéria da cárieUm dos principais resultados foi que o THC inibiu efetivamente o crescimento da S.
mutans. A partir da concentração de 2 mg/mL, mais de 90% das bactérias deixaram de se multiplicar.Outro resultado relevante foi a redução da produção de ácidos. No estudo, o canabinoide retardou a queda do pH no meio dependendo da dose utilizada.
Em concentrações mais altas, as bactérias expostas ao THC demoraram muito mais tempo para atingir o nível de acidez considerado crítico para o início da cárie.Biofilme sob ataque e redução da placa bacterianaO THC também mostrou forte ação contra a formação da placa bacteriana.
Com doses a partir de 1 a 2 mg/mL, houve uma redução superior a 90% na formação do biofilme.Além disso, o composto diminuiu significativamente a produção dos polissacarídeos que ajudam a bactéria a se fixar no dente. Ou seja, o THC prejudicou a capacidade da S.
mutans de se organizar e se proteger na superfície dental.Quando o THC foi aplicado sobre biofilmes já existentes, ele não conseguiu remover a estrutura física da placa, mas reduziu de forma consistente a atividade metabólica e a viabilidade das bactérias.
Isso indica que o THC age principalmente como um agente bacteriostático: ele não “mata” imediatamente as bactérias, mas paralisa suas funções, impedindo sua multiplicação e a produção de ácidos.Como o THC desestabiliza a bactéria da cáriePara entender como o THC provoca esses efeitos, os pesquisadores analisaram a membrana celular da bactéria.
Eles observaram que o canabinoide causa uma hiperpolarização da membrana, uma alteração elétrica que interfere em funções vitais da célula, como:• Produção de energia• Controle do pH interno• Divisão celularEsse desequilíbrio explica, em parte, por que a bactéria perde eficiência e se torna menos agressiva ao esmalte dental.Cautela para ir do laboratório para a clínicaOs autores concluem que o THC apresenta potencial anticariogênico, pois atua em vários pontos-chave do processo que leva à cárie: crescimento bacteriano, formação de placa, produção de ácidos e atividade metabólica.No entanto, eles ressaltam que os resultados são preliminares e em modelos de laboratório.
O THC, por causar efeitos psicoativos, exige cautela para o uso como medicamento odontológico.
Entretanto, a compreensão desses mecanismos pode abrir caminho para o desenvolvimento de novos produtos voltados para a prevenção e tratamento da cárie.E no Brasil, já existem produtos odontológicos à base de Cannabis?Atualmente, há produtos à base de canabinoides para uso odontológico, como enxaguatórios e formulações tópicas.
Eles podem ser importados por pacientes brasileiros mediante prescrição médica, conforme as regras da Anvisa.Portanto, se você ou alguém próximo deseja incluir medicamentos à base de Cannabis em um tratamento, busque orientação profissional. Acessando a nossa plataforma de agendamento, é possível marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com médicos experientes nesse tipo de prescrição.
