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CONIME 2026 reúne grandes nomes internacionais e eleva o nível do debate sobre Cannabis medicinal no Brasil

Cannabis & Saúde 30/03/2026 18:03

Com o auditório cheio e uma plateia atenta e participativa, o CONIME 2026 – II Congresso Internacional da Associação Pan-americana Multidisciplinar de Endocanabinologia reuniu alguns dos principais nomes da pesquisa e da prática clínica em Cannabis medicinal em um momento particularmente importante para o setor. Mais do que apresentar descobertas, o congresso evidenciou um ponto que já não pode mais ser contornado.

A Cannabis medicinal deixou de ocupar o espaço da validação — esse debate, em grande medida, já foi superado. O que se impõe agora é outra camada, mais exigente: como sustentar, na prática, aquilo que já se expandiu no uso. Como reduzir a variabilidade, dar consistência à prescrição e construir algum nível de previsibilidade em um campo ainda marcado por diferenças entre produtos, doses e respostas.

Engajamento da plateia revela um debate mais qualificado Ao longo dos dias, o nível de engajamento da plateia chamou atenção não apenas pelo volume de perguntas, mas pela qualidade das intervenções. Não se tratava de um público em busca de introdução ao tema.

Eram profissionais que já atuam com Cannabis medicinal — e que, diante da experiência acumulada, passaram a tensionar pontos mais específicos: ajuste de dose, critérios de indicação, duração de tratamento e interpretação de resposta clínica. Esse perfil ajudou a moldar o próprio ritmo do evento.

As falas não se encerravam nas apresentações; ganhavam continuidade nas perguntas, nos comentários e, muitas vezes, em aplausos que sinalizavam reconhecimento — não apenas concordância. Regulação: avanço contínuo dentro de limites definidos A mesa sobre o cenário regulatório no Brasil trouxe uma leitura direta sobre o papel da Anvisa no momento atual.

Ao destacar a ausência de uma lei específica para a Cannabis no país, João Paulo Perfeito reforçou que os avanços observados até aqui acontecem dentro de um escopo jurídico delimitado.

“A gente não tem, até hoje, uma lei específica sobre o tema no Brasil, e isso limita o tipo de avanço regulatório que pode ser feito.” A atualização normativa que entra em vigor em maio segue essa lógica: amplia possibilidades operacionais e ajusta processos, mas sem alterar de forma estrutural o modelo vigente.

Na prática, o setor continua avançando, ainda que por meio de ajustes progressivos, e não de mudanças mais amplas. Entre evidência e prática: leituras que se complementam Um dos pontos mais consistentes do congresso apareceu nas discussões sobre autismo, que reuniu diferentes perspectivas sobre o uso de canabinoides no transtorno do espectro autista.

A apresentação de Adi Aran trouxe dados de estudos clínicos que indicam melhora em parte dos pacientes, mas com resultados variáveis entre os desfechos avaliados. Já a experiência clínica apresentada por Rubens Wajnztejn destacou benefícios observados na prática, especialmente no manejo de sintomas associados, como ansiedade, sono e comportamento.

“Enquanto a evidência científica ainda é limitada, a prática clínica aponta benefícios, especialmente no manejo de sintomas associados ao autismo.” As diferentes leituras não se colocaram como oposição, mas como reflexo de um campo que ainda está organizando suas referências.

Nesse contexto, a contribuição de Debra Karhson trouxe uma dimensão adicional ao apontar a necessidade de avançar também na forma como esses tratamentos são acompanhados ao longo do tempo.

Da prescrição à formulação: o centro da prática clínica Outro eixo importante do congresso foi a discussão sobre prescrição e formulação — aspectos que, cada vez mais, se consolidam como centrais para a consistência dos resultados clínicos. A fala de Fabrício Pamplona destacou a variabilidade entre produtos e a necessidade de maior precisão na prescrição.

“A prescrição deve ser orientada em miligramas de canabinoides, e não em número de gotas.” Ao mesmo tempo, a discussão avançou para além do uso isolado de compostos, incorporando temas como combinações de canabinoides, uso de microdoses de THC e a influência da matriz vegetal na resposta terapêutica.

Esse movimento indica um aprofundamento do campo, que passa a exigir um raciocínio clínico mais ajustado às particularidades de cada paciente. Quando o foco se desloca para o uso Ao longo dos painéis, esse deslocamento apareceu de forma natural na dinâmica das discussões — nas perguntas da plateia, nas leituras complementares dos dados e na tentativa de dar mais consistência à prática clínica.

A Cannabis deixou de ser defendida e passou a ser analisada. O foco saiu do potencial e se concentrou na forma de uso, com todas as suas nuances, limites e zonas ainda pouco compreendidas. Expansão das discussões e novas frentes A programação também apontou para uma ampliação do escopo da Cannabis medicinal, com discussões que avançam para áreas como metabolismo e doenças sistêmicas.

A apresentação de Yossi Tam trouxe o sistema endocanabinoide como possível alvo terapêutico em condições como obesidade, indicando novas frentes de pesquisa — ainda em desenvolvimento, mas já incorporadas ao debate científico.

Um congresso que acompanha a complexidade do setor Ao final, o CONIME 2026 se destaca menos por apresentar respostas definitivas e mais por acompanhar, com precisão, o estágio atual da Cannabis medicinal. Um campo que já avançou no acesso, ampliou seu uso clínico e consolidou espaço no debate científico — mas que agora passa a lidar com a necessidade de organizar essa expansão.

Mais do que um espaço de atualização, o congresso se afirma como um ambiente de elaboração: onde as perguntas ganham forma e os próximos passos começam a ser delineados.

Créditos: Cannabis & Saúde.