Um estudo clínico de fase 2 trouxe novos dados sobre o uso de canabidiol (CBD) em crianças e adolescentes com síndrome de DiGeorge. A condição é genética e pode causar problemas físicos, cognitivos e comportamentais. Os resultados sugerem que um gel de CBD aplicado na pele pode ajudar a reduzir sintomas como ansiedade e irritabilidade, com bom perfil de segurança.
Como foi feito o estudo com CBD Pesquisadores avaliaram um medicamento em forma de gel aplicado na pele (transdérmico) com CBD. O estudo, intitulado INSPIRE, incluiu 20 pacientes entre 4 e 17 anos de idade com síndrome de DiGeorge, acompanhados por até 38 semanas.
O tratamento foi feito com aplicação do gel duas vezes ao dia na parte superior dos braços e/ou nos ombros, com dose baseada no peso: • até 35 kg: 250 mg por dia • acima de 35 kg: 500 mg por dia Os resultados mostraram que o tratamento foi bem tolerado e esteve ligado à redução de sintomas comportamentais e de ansiedade.
O que é a síndrome de DiGeorge A síndrome de DiGeorge (também chamada de síndrome deleção 22q11.2) é rara e afeta cerca de 1 a cada 6 mil nascimentos.
Além de alterações físicas, a condição está frequentemente associada a: • ansiedade • dificuldades sociais • déficit de atenção • maior risco de transtornos psiquiátricos Atualmente não existem medicamentos aprovados especificamente para tratar esses sintomas nessa população.
Por isso, o estudo chama atenção ao sugerir que o CBD pode se tornar, no futuro, uma opção terapêutica voltada diretamente para essas dificuldades, especialmente a ansiedade, que é um dos sintomas mais comuns e impactantes.
O que melhorou com o tratamento Após 14 semanas, os pesquisadores observaram: • queda de cerca de 40% na ansiedade • melhora de até 60% em humor e comportamento • redução de cerca de 36% a 45% na irritabilidade • 75% dos pacientes tiveram melhora clínica significativa Além disso, mais de 80% dos cuidadores relataram melhora em pelo menos um sintoma importante no dia a dia.
Como o CBD age no cérebro O estudo aponta alguns mecanismos que podem explicar os resultados. O canabidiol atua no sistema endocanabinoide, um sistema do corpo que ajuda o cérebro a regular funções como humor, ansiedade, comportamento e resposta ao estresse. Na síndrome de DiGeorge, alterações genéticas podem afetar o funcionamento desse sistema, prejudicando a comunicação entre neurônios.
De acordo com os autores, o CBD pode ajudar a: • regular receptores cerebrais (como CB1) • equilibrar sinais químicos ligados à ansiedade • aumentar níveis de substâncias como a anandamida (ligada à melhora de sintomas emocionais) Além disso, o CBD também interage com outros sistemas importantes, como: • serotonina (relacionado ao humor) • GABA (ligado ao relaxamento) • dopamina (envolvida em motivação e comportamento) É importante destacar que o produto utilizado no estudo não continha THC, o canabinoide associado aos efeitos psicoativos e, em alguns casos, a efeitos adversos.
O que os resultados significam na prática Os dados reforçam o potencial do canabidiol como uma forma de tratamento para sintomas comportamentais em condições do neurodesenvolvimento, como a síndrome de DiGeorge. Porém, apesar dos resultados promissores, o estudo ainda está em fase inicial. Na prática, o CBD foi utilizado como complemento ao tratamento convencional, não como substituto.
Os autores defendem que os resultados justificam a realização de um estudo maior, de fase 3, com metodologia mais robusta, incluindo grupo placebo. Esse tipo de estudo será essencial para confirmar a eficácia, avaliar melhor a segurança e apoiar decisões de agências reguladoras. Se os resultados forem confirmados, o CBD pode se tornar uma opção terapêutica mais direcionada para pessoas com a síndrome de DiGeorge.
O acesso à medicamentos à base de Cannabis no Brasil No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis sob prescrição médica. Se você ou alguém próximo deseja iniciar uma terapia com canabinoides, busque orientação especializada.
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