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Cannabis reduz dor e uso de opioides em estudo de 10 anos

Cannabis & Saúde 22/09/2026 17:57

Um estudo publicado no European Spine Journal acompanhou 1.000 pacientes com dor lombar crônica por até dez anos e encontrou uma associação entre o tratamento com medicamentos à base de Cannabis e reduções na intensidade da dor e no uso de opioides e outros remédios. Entre os 638 participantes que chegaram ao décimo ano de acompanhamento, o consumo médio de opioides caiu 89%.

A intensidade da dor também apresentou redução, enquanto a melhora da capacidade funcional aconteceu mais lentamente. No entanto, os autores recomendam cautela com esses números, por se tratar de um estudo observacional e sem grupo placebo. Quem participou do estudo Os pesquisadores analisaram pacientes com dor lombar crônica que já conviviam com a condição havia anos.

Em média, os pacientes conviviam com dor havia 9,8 anos. Todos os participantes apresentavam alterações estruturais da coluna confirmadas por tomografia ou ressonância magnética, como estenose espinhal, degeneração dos discos ou dor de origem vertebral.

Para participar, também era necessário utilizar opioides de forma contínua havia pelo menos um ano e não ter obtido resposta suficiente com tratamentos convencionais, como fisioterapia, anti-inflamatórios e os próprios opioides. Outro critério importante era que nenhum dos 1.000 participantes tivesse usado derivados da Cannabis anteriormente. Essa informação foi confirmada por testes de urina.

Os participantes foram acompanhados anualmente durante dez anos, a partir de 2015. Com o tratamento com Cannabis foi realizado O tratamento foi realizado sob supervisão médica. Os médicos seguiam a estratégia conhecida como “start low, go slow”, que significa começar com uma dose baixa e aumentá-la aos poucos. Nos produtos ricos em ∆9-tetrahidrocanabinol (THC), a dose inicial ficava geralmente entre 2,5 e 5 mg.

Depois, ela foi ajustada ao longo de duas a quatro semanas de acordo com a resposta de cada paciente e com a ocorrência de efeitos adversos. Depois do período inicial de ajuste, o consumo de produtos à base de Cannabis se manteve relativamente estável. Para os autores, essa estabilidade ao longo dos dez anos sugere que não houve desenvolvimento significativo de tolerância ao tratamento.

Uso de opioides caiu quase 90% entre quem completou o estudo Entre os 638 pacientes que chegaram ao décimo ano, o consumo médio caiu de 62,8 para 6,4 mg por dia em equivalentes de morfina. Essa medida permite converter diferentes opioides em uma mesma unidade e, assim, permitir comparações. A mudança representa uma redução de 89,8% na dose de opioides utilizada pelos pacientes com dor lombar crônica.

Além disso, 6,6% chegaram ao décimo ano sem utilizar opioides. De acordo com os pesquisadores, a maior parte dessa redução aconteceu já no primeiro ano. É importante destacar, porém, que o estudo não estabeleceu um protocolo para a retirada de opioides. A decisão de manter ou reduzir esses medicamentos era tomada pelos médicos conforme a evolução clínica de cada paciente.

Intensidade da dor caiu ao longo do acompanhamento A intensidade da dor foi medida em uma escala de zero a dez. No início do estudo, a média era de 8,71 pontos. No décimo ano, caiu para 1,37. Ao fim de dez anos, 96,6% dos participantes que completaram o acompanhamento apresentaram melhora clinicamente relevante.

Os pesquisadores definiram como melhora clinicamente relevante uma redução de pelo menos 30% na escala de intensidade da dor. Além disso, 89% apresentavam dor igual ou inferior a três pontos. Melhora funcional demorou mais para aparecer Os pesquisadores utilizaram o Índice de Incapacidade de Oswestry (ODI, na sigla em inglês) para avaliar o quanto a dor interferia nas atividades do dia a dia dos pacientes.

A pontuação média caiu de 52,9 no início para 36,8 no décimo ano. Entre os que ficaram até o final do estudo, 62% atingiram melhora considerada clinicamente relevante. Mas esse resultado apareceu de forma mais lenta do que a redução da dor e do uso de opioides. Os pesquisadores registraram pouca mudança funcional até aproximadamente o quinto ano. A melhora ficou mais evidente entre o sétimo e o décimo ano.

Segundo os autores, a recuperação funcional exige mais do que simplesmente controlar a dor. Recondicionamento físico e adaptação progressiva também podem ter papel importante. Uso de outros medicamentos também diminuiu Entre os participantes que completaram os dez anos de estudo, o uso de tramadol ou tapentadol caiu de 89,7% para 5,6%. Entre os benzodiazepínicos, a proporção passou de 78,8% para 5,3%.

O uso de antidepressivos da classe dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) caiu de 77,7% para 5,8%. Já os gabapentinoides passaram de 31,3% para apenas 0,6%. Assim como ocorreu com os opioides, essas reduções não faziam parte de um protocolo obrigatório. De acordo com o estudo, foram decisões tomadas individualmente por médicos e pacientes de acordo com a resposta clínica.

Os eventos adversos registrados O estudo não registrou hospitalizações, mortes ou interrupções do tratamento atribuídas a eventos adversos. Também não identificou casos clínicos de transtorno por uso de Cannabis. Eventos adversos foram registrados em 11% das visitas de acompanhamento. Os mais frequentes foram: • boca seca (5,2%); • náuseas ou alterações de apetite (3,6%); • pressão baixa (0,4%); • tontura (0,1%).

Foram registrados dois eventos psiquiátricos graves, correspondentes a 0,02%. Por que os resultados exigem cautela Os autores destacaram que os resultados são interessantes, especialmente pela duração do acompanhamento e pela redução simultânea do uso de opioides e outros medicamentos convencionais. Eles consideram, porém, que os achados ainda não são evidência suficiente para mudar a prática clínica.

Entre as próximas etapas sugeridas estão estudos randomizados que comparem medicamentos à base de Cannabis com outros tratamentos ativos, usem formulações padronizadas e incluam mais pacientes. Ainda assim, o estudo acrescenta informações instigantes à discussão sobre o uso medicinal da Cannabis no manejo da dor lombar crônica e sobre a redução de opioides.

Como funciona o acesso à Cannabis no Brasil No Brasil, a Anvisa autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis com prescrição médica. Aqueles que desejam incluir derivados da planta no tratamento devem buscar orientação profissional. Por meio da plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com profissionais experientes nesse tipo de terapia.

Créditos: Cannabis & Saúde.