Celebrado em 25 de outubro no Brasil, o Dia do Cirurgião-Dentista é uma oportunidade para reconhecer a importância desses profissionais na promoção da saúde e da qualidade de vida da população. A data também convida à reflexão sobre os avanços científicos, a atualização profissional e as novas possibilidades terapêuticas que vêm transformando a prática odontológica.
Entre os temas que têm ganhado espaço nesse cenário está a Cannabis medicinal. Mais do que uma alternativa em investigação para o controle da dor, os fitocanabinoides vêm sendo estudados por seu potencial de atuação em processos inflamatórios, dores orofaciais e diferentes condições que desafiam a prática clínica.
Distúrbios como a disfunção temporomandibular (DTM), lesões da mucosa oral, ansiedade associada ao atendimento odontológico e síndromes de difícil manejo, como a síndrome da ardência bucal, estão entre os campos de interesse. Embora os resultados de algumas pesquisas sejam promissores, a aplicação clínica ainda exige cautela, avaliação individualizada e acompanhamento das evidências científicas.
Estudos recentes investigam os efeitos dos canabinoides em diferentes condições odontológicas, mas ainda existem limitações importantes quanto à eficácia, à segurança e à definição de protocolos de utilização. Dra. Ketsia Bezerra Medeiros, dentista e professora da Vigo Academy, tem acompanhado essa transformação de perto e aponta uma série de indicações clínicas que vão além do que se costuma imaginar.
“Hoje, as indicações são inúmeras. Muito se fala em dor e DTM, que são as disfunções temporomandibulares, mas também há aplicações em inflamações, lesões orais, traumas e no pós-cirúrgico. A Cannabis ajuda a diminuir a dor, aumentar a cicatrização e reduzir o desconforto do pós-operatório”, afirma.
Do alívio da dor à odontologia do sono: onde a Cannabis atua As possibilidades terapêuticas da Cannabis se expandem a áreas que vão desde a periodontia até o atendimento de pacientes com necessidades especiais.
O interesse científico está relacionado, entre outros fatores, à atuação do sistema endocanabinoide, uma rede de receptores, substâncias produzidas pelo próprio organismo e enzimas que participam da regulação de processos como a percepção da dor, a resposta inflamatória e determinadas funções neurológicas. “Tem sido estudado o uso de alguns canabinoides como antimicrobianos, diminuindo inflamações orais.
E uma indicação que está em evidência é o uso em pacientes com necessidades especiais, como autismo, que geralmente têm uma resistência muito grande ao atendimento odontológico”, explica.
O ambiente do consultório, cheio de estímulos visuais e sonoros, pode ser desafiador para alguns pacientes com transtorno do espectro autista, especialmente quando há dificuldades de comunicação, hipersensibilidade sensorial ou ansiedade. Para eles — e para pessoas com fobia ou ansiedade intensa — estratégias individualizadas de acolhimento, adaptação sensorial e manejo comportamental são fundamentais.
O eventual uso de canabinoides deve ser avaliado caso a caso, sem pressupor que o tratamento seja eficaz para todos ou que substitua essas medidas. “A gente tem utilizado com muito sucesso também em pacientes que têm fobia, ansiedade pré-atendimento e até em casos como a síndrome do ardor bucal, que é muito difícil de tratar”, completa.
Nos casos de DTM e bruxismo, a atuação dos canabinoides sobre mecanismos relacionados à dor e ao sistema nervoso central desperta interesse como possível abordagem complementar. “A gente passou a vida ‘emplacando’ os pacientes — ou seja, colocando placas de mordida — para que eles não quebrassem os dentes. Mas isso não trata a raiz do problema.
O bruxismo é um fator de risco importante para a DTM e tem origem no sistema nervoso central, que a Cannabis pode modular.” A relação entre bruxismo e DTM, no entanto, é complexa. O bruxismo pode contribuir para a sobrecarga muscular e dentária em determinados pacientes, mas nem todo quadro de DTM é causado por ele.
O diagnóstico precisa considerar fatores musculares, articulares, comportamentais e psicossociais, entre outros. O que dizem os estudos sobre dor orofacial e DTM? Uma revisão sistemática publicada em 2022, intitulada Cannabinoid therapeutics in orofacial pain management: a systematic review, avaliou estudos sobre o uso de canabinoides no manejo da dor orofacial.
Os resultados foram inconsistentes: enquanto um estudo apontou melhora significativa da dor associada à DTM com uma formulação tópica de canabidiol (CBD), outros não encontraram benefícios estatisticamente significativos em diferentes condições. Os autores concluíram que as evidências disponíveis ainda eram insuficientes para confirmar um benefício clínico consistente.
Outra publicação relevante é a revisão Anticaries and Antigingivitis Properties of Cannabinoid-Containing Oral Health Products: A Review, de 2024, que investigou o potencial de produtos de higiene oral contendo canabinoides contra bactérias associadas à cárie e à inflamação gengival.
Os resultados discutidos pelos autores indicam possibilidades de pesquisa, mas ainda não justificam substituir métodos convencionais de higiene oral e tratamentos odontológicos estabelecidos por produtos à base de canabinoides.
Em conjunto, essas pesquisas ajudam a explicar por que a Cannabis medicinal vem despertando interesse na Odontologia, mas também mostram que o potencial terapêutico não deve ser confundido com eficácia já estabelecida para todas as indicações. CBD e THC: como atuam na prática odontológica A Cannabis pode atuar de maneira sistêmica, mesmo quando a queixa do paciente está localizada na cavidade oral.
Por isso, a avaliação criteriosa é indispensável. “A primeira coisa é uma boa anamnese. Apesar de prescrevermos para uma condição oral, a Cannabis age no corpo inteiro. Então precisamos avaliar outros medicamentos em uso, doenças pré-existentes e o perfil do paciente”, alerta a dentista. Na prática clínica, dois dos principais fitocanabinoides são o canabidiol (CBD) e o delta-9-tetraidrocanabinol (THC).
Eles apresentam mecanismos de ação diferentes e podem produzir efeitos distintos conforme a dose, a formulação, a via de administração e as características individuais do paciente. “Quando a gente pensa no CBD, o uso é principalmente como ansiolítico, anti-inflamatório e para melhora do sono.
Já o THC funciona muito bem como analgésico e também como relaxante muscular — embora também tenha ação anti-inflamatória e melhore o sono. Para casos de DTM, por exemplo, a gente sempre precisa usar um pouco de THC.
Normalmente, escolhemos um óleo que já contenha esses canabinoides combinados, e ajustamos a proporção de acordo com a condição de cada paciente.” A escolha entre CBD, THC ou formulações combinadas deve ser individualizada e baseada na indicação clínica, nas evidências disponíveis e na análise dos riscos.
O THC pode provocar efeitos psicoativos, tontura, sonolência e alterações cognitivas, enquanto diferentes produtos podem apresentar interações medicamentosas e outros efeitos adversos. Por isso, a seleção da formulação, a definição da dose e o acompanhamento da resposta não devem seguir uma receita única.
É necessário estabelecer objetivos terapêuticos, observar possíveis efeitos indesejados e reavaliar periodicamente a continuidade do tratamento. Síndrome da ardência bucal Uma condição de difícil manejo na Odontologia, segundo a Dra. Ketsia, é a síndrome da ardência bucal.
“O paciente se queixa de ardor, de queimação na boca, na língua, nas mucosas, e a gente não consegue achar nenhuma lesão ou alteração visível que justifique esses sintomas. É uma situação crônica, que acomete muito mais mulheres. A gente tem utilizado principalmente o canabidiol, sem THC, porque o THC pode causar xerostomia, a sensação de boca seca.
E temos visto melhora nesses pacientes.” A síndrome da ardência bucal caracteriza-se por dor ou sensação de queimação persistente na cavidade oral, sem alterações clínicas que expliquem os sintomas. Antes de estabelecer o diagnóstico, é importante investigar possíveis causas secundárias, como deficiências nutricionais, infecções, alterações salivares, efeitos de medicamentos e outras condições sistêmicas.
A xerostomia, ou sensação subjetiva de boca seca, merece atenção especial na escolha de qualquer tratamento. A redução da saliva pode comprometer o conforto do paciente, a deglutição, a fala e a proteção natural dos dentes e das mucosas.
Pesquisa clínica investiga o CBD para a ardência bucal Um ensaio clínico publicado on-line em julho de 2026 no periódico Oral Surgery, Oral Medicine, Oral Pathology and Oral Radiology investigou o efeito analgésico de um óleo de CBD de espectro completo em pessoas com síndrome da ardência bucal. O estudo incluiu 26 participantes, distribuídos entre os grupos de CBD e placebo, com 13 pessoas em cada grupo.
Os pesquisadores observaram redução da intensidade e do impacto da dor, além de melhora na qualidade de vida no grupo que recebeu o produto. Não foram observados eventos adversos graves durante o estudo. Apesar dos resultados favoráveis, o número reduzido de participantes e o acompanhamento limitado impedem conclusões definitivas.
O estudo reforça a necessidade de novas pesquisas para confirmar os resultados, avaliar a segurança em longo prazo e determinar quais pacientes podem se beneficiar dessa abordagem.
Acesse o estudo sobre CBD e síndrome da ardência bucal CBD e condições orais: revisão de estudos clínicos publicada em 2025 A revisão sistemática Therapeutic potential of cannabidiol in oral disorders: A systematic review of clinical evidence, publicada em 2025 no Journal of the American Dental Association, reuniu sete estudos clínicos sobre o uso de CBD em diferentes condições orais.
Os trabalhos analisaram desfechos relacionados à dor, à tensão muscular, à inflamação gengival, à carga bacteriana e a lesões da mucosa oral. Embora alguns resultados tenham sido favoráveis, as diferenças entre os estudos e as formulações utilizadas limitaram a comparação dos resultados e impediram conclusões definitivas sobre a eficácia clínica do CBD nas diversas condições investigadas.
A revisão reforça a importância de ampliar as pesquisas clínicas para estabelecer quais formulações podem apresentar benefícios, em quais condições e com que perfil de segurança.
Prescrição legal e segura: o que o dentista pode fazer hoje No Brasil, os cirurgiões-dentistas podem prescrever produtos à base de Cannabis medicinal, conforme as regulamentações sanitárias vigentes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), incluindo a RDC nº 660/2022 e a RDC nº 1.015/2026.
A prescrição deve respeitar as competências profissionais, as indicações clínicas e os requisitos aplicáveis a cada modalidade de acesso aos produtos. Na prática, o tratamento exige avaliação individualizada, conhecimento das possíveis interações medicamentosas, análise do histórico de saúde do paciente e acompanhamento da resposta terapêutica.
A capacitação profissional é essencial para que a Cannabis medicinal seja incorporada à Odontologia com segurança e respaldo científico. Formação profissional: o que falta aos dentistas? A ausência do tema nas graduações é um dos principais entraves para o avanço do uso clínico da Cannabis na Odontologia. “Praticamente nenhuma faculdade ensina o Sistema Endocanabinoide na disciplina de fisiologia.
E sem conhecer esse sistema, o profissional de saúde não tem nem como se interessar pelo tratamento com Cannabis”, afirma a Dra. Ketsia Bezerra Medeiros. O conhecimento do sistema endocanabinoide pode ampliar a compreensão de mecanismos relacionados à dor, à inflamação e à regulação de diferentes funções fisiológicas.
Entretanto, conhecer esses mecanismos não significa que todas as aplicações propostas já tenham comprovação clínica: é necessário relacionar os achados laboratoriais aos resultados obtidos em pacientes. Professora do curso da Vigo Academy, Ketsia contribui para preparar dentistas a atuarem com maior segurança e respaldo científico, preenchendo uma importante lacuna na formação profissional.
A capacitação também deve contemplar farmacologia, interações medicamentosas, contraindicações, documentação clínica, legislação e interpretação crítica da literatura científica. Principais estudos sobre Cannabis medicinal na Odontologia As publicações científicas ajudam a dimensionar o potencial e as limitações da área.
Entre os trabalhos relevantes estão: Cannabinoid therapeutics in orofacial pain management: a systematic review (2022): revisão sistemática sobre canabinoides na dor orofacial. Encontrou resultados clínicos inconsistentes e concluiu que ainda não havia evidências suficientes para confirmar um benefício significativo em diferentes condições de dor odontológica.
Anticaries and Antigingivitis Properties of Cannabinoid-Containing Oral Health Products: A Review (2024): revisão sobre produtos de higiene oral com canabinoides e seu potencial contra cárie e gengivite. O trabalho discute resultados preliminares e a necessidade de validação clínica antes de recomendar seu uso como alternativa aos produtos convencionais.
Therapeutic potential of cannabidiol in oral disorders: A systematic review of clinical evidence (2025): revisão sistemática de estudos clínicos sobre o CBD em diferentes condições orais. Os resultados apontam possibilidades terapêuticas, mas também destacam limitações metodológicas e a necessidade de pesquisas mais robustas.
Ensaio clínico sobre CBD e síndrome da ardência bucal (2026): estudo com 26 participantes que encontrou redução da dor e melhora da qualidade de vida no grupo tratado com óleo de CBD de espectro completo. O tamanho reduzido da amostra indica a necessidade de confirmação em pesquisas maiores.
Em conjunto, esses estudos mostram que a pesquisa sobre canabinoides na Odontologia está avançando, especialmente em dor orofacial, inflamação e alterações da mucosa oral. Também evidenciam que os resultados variam de acordo com o composto, a formulação e a condição estudada.
A incorporação responsável desses recursos à prática clínica depende da qualidade das evidências, da avaliação individual e da atualização profissional contínua.
Curso online: Medicina Canabinoide na Prática — da teoria à prescrição Como parte desse movimento de atualização da Odontologia, a Vigo Academy oferece a formação Medicina Canabinoide na Prática: Da Teoria à Prescrição Segura, voltada exclusivamente para cirurgiões-dentistas.
O curso é online e prepara os profissionais para compreender os fundamentos da Cannabis medicinal, avaliar suas possibilidades terapêuticas e conh ecer os aspectos regulatórios envolvidos na prescrição odontológica.
Com foco em evidências científicas e aplicação no dia a dia clínico, a formação aborda conhecimentos importantes para quem deseja apro fundar sua atuação com fitocanabinoides, desde a compreensão do sistema endocanabinoide até os cuidados necessários para uma prescrição individualizada e segura.
A proposta é contribuir para uma prática odontológica mais atualizada, ampliando o conhecimento sobre as aplicações da Cannabis medicinal e os critérios que devem orientar sua utilização clínica. Da teoria à prescrição: dentistas interessados em conhecer a formação podem consultar o programa completo e as informações sobre inscrição no site da Vigo Academy.
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