Algumas crianças com transtorno do espectro autista (TEA) que não utilizavam a fala começaram a pronunciar palavras durante um estudo clínico com canabidiol (CBD) nos Estados Unidos. A mudança foi observada por pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego, que investigaram os efeitos do composto sobre comportamentos desafiadores em meninos autistas.
Os pesquisadores também observaram redução da agressividade, da hiperatividade e de comportamentos em que algumas crianças machucavam a si mesmas, chamados de autolesivos. O estudo, publicado no Journal of Autism and Developmental Disorders, avaliou 39 meninos com TEA, com idades entre 7 e 14 anos, utilizando um medicamento que contém apenas CBD isolado.
Embora tenham identificado sinais de melhora clínica, os pesquisadores não conseguiram demonstrar que o canabidiol isolado foi mais eficaz que o placebo em outras escalas de avaliação. Crianças que não falavam começaram a articular palavras Um dos resultados que mais chamaram a atenção dos pesquisadores foi a melhora na comunicação de algumas crianças.
Durante as consultas de acompanhamento, os profissionais de saúde registraram avanços na comunicação de seis participantes que recebiam CBD. Entre eles estavam crianças que anteriormente não utilizavam a fala e começaram a pronunciar palavras. De acordo com os autores, as mudanças foram identificadas por profissionais de saúde durante consultas semanais ou quinzenais.
Eles não sabiam se cada criança estava recebendo CBD ou placebo naquele momento, o que ajudava a reduzir possíveis influências sobre suas avaliações. As observações indicam uma possibilidade que merece novas investigações, mas não comprovam que o CBD seja capaz de desenvolver a fala em crianças com TEA.
Escala de avaliação não confirmou melhora na comunicação Além das observações clínicas, os pesquisadores utilizaram ferramentas de avaliação com critérios definidos para medir possíveis mudanças no comportamento dos participantes. Uma delas foi o Autism Diagnostic Observation Schedule, segunda edição (ADOS-2). Essa escala avalia aspectos como comunicação, interação social e comportamentos associados ao autismo.
No estudo, as pontuações da ADOS-2 não apresentaram diferenças estatisticamente significativas entre os períodos de tratamento com CBD e placebo. Assim, embora os profissionais tenham observado avanços na comunicação de algumas crianças, a escala não confirmou uma diferença significativa entre os tratamentos com CBD e placebo.
Os próprios pesquisadores levantaram a possibilidade de que a ADOS-2 seja uma ferramenta muito ampla para identificar determinadas mudanças individuais ao longo de um tratamento. Menos agressividade, hiperatividade e autolesão Os avanços na comunicação não foram as únicas mudanças identificadas durante o tratamento com CBD.
As observações clínicas registraram redução da agressividade em nove crianças e diminuição da hiperatividade em oito. Também foram identificados menos comportamentos autolesivos em três crianças e redução da ansiedade em uma. Os responsáveis e cuidadores também preencheram o Child Behavior Checklist (CBCL), um questionário que avalia dificuldades emocionais e comportamentais de crianças.
Entre os aspectos analisados estão agressividade, dificuldade de atenção e problemas de relacionamento. Embora as observações clínicas tenham identificado mudanças positivas, os resultados desse questionário não foram suficientes para confirmar a eficácia do canabidiol. CBD apresentou melhora em escala de comportamentos repetitivos Outro resultado favorável ao CBD apareceu na avaliação dos comportamentos repetitivos.
Os pesquisadores utilizaram a Repetitive Behavior Scale-Revised (RBS-R), uma escala preenchida pelos responsáveis que avalia a frequência e a intensidade de diferentes comportamentos. Durante oito semanas de tratamento com CBD, os participantes apresentaram melhora significativa na pontuação dessa escala.
Os autores consideraram esse resultado um sinal de possível benefício que precisa ser investigado em estudos maiores, com mais participantes e instrumentos capazes de avaliar mudanças mais específicas no comportamento. Como os pesquisadores avaliaram o CBD? A pesquisa investigou crianças com TEA que necessitavam de suporte importante e apresentavam comportamentos persistentes de agressividade, autolesão ou repetição.
Ao todo, 39 meninos, com idades entre 7 e 14 anos, foram incluídos nas análises. Desse grupo, 30 completaram as 20 semanas previstas de acompanhamento. Os pesquisadores utilizaram o Epidiolex, medicamento à base de CBD isolado. O estudo foi randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Cada participante recebeu CBD durante oito semanas e placebo durante oito semanas, em ordem definida por sorteio.
Entre os dois períodos houve um intervalo de quatro semanas sem tratamento. A dose de CBD foi aumentada gradualmente até atingir 20 mg/kg por dia, divididos em duas administrações. Esse formato permitiu que os pesquisadores comparassem as respostas de cada criança durante os dois tratamentos.
Nenhum evento adverso grave foi registrado Durante o período de administração de CBD, foram registrados 59 eventos adversos, enquanto 49 ocorreram com o placebo. Nenhum deles foi classificado como grave. Entre os problemas relatados estavam diarreia, insônia, náuseas, alterações hepáticas e mudanças no apetite.
Os autores consideraram que o canabidiol apresentou um bom perfil de segurança, sendo bem tolerado pelos participantes. Pesquisadores querem identificar que pode se beneficiar mais do CBD Para os pesquisadores, os próximos passos envolvem identificar se existem grupos específicos de crianças com TEA que possam apresentar mais benefícios com o tratamento com CBD.
Para verificar se essas mudanças podem ser atribuídas ao canabidiol, serão necessários novos estudos clínicos com mais participantes. Essas pesquisas também deverão incluir avaliações específicas da linguagem e da comunicação.
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