Pediatra, pós-graduada em Neurologia e Psiquiatria da Infância e da Adolescência, Dra. Viviane Vieira acompanha pacientes em tratamento com Cannabis medicinal e conhece essa experiência também de perto, como paciente e mãe de um adolescente autista. Eu costumo dizer que sou médica desde pequena. Sempre quis ser pediatra. Brincava de boneca, de dar remédio, de fazer consulta.
Era algo que já estava em mim muito antes de eu entender o que significava exercer a medicina. Segui esse caminho e comecei minha carreira na pediatria geral. Mas minha própria história familiar acabou mudando também os rumos da médica que eu me tornaria. Meu filho nasceu em 2011 e, em 2014, recebeu o diagnóstico de autismo.
Minha filha tem TDAH. O transtorno do espectro autista, o TEA, é uma condição do neurodesenvolvimento que pode se manifestar de maneiras muito diferentes, envolvendo aspectos como comunicação, interação social e comportamento. O TDAH, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, também é uma condição do neurodesenvolvimento e pode envolver dificuldades de atenção, impulsividade e hiperatividade.
Antes de fazerem parte do meu trabalho, essas questões já atravessavam a minha vida como mãe. Minha formação sempre esteve ligada à medicina convencional, mas eu tinha vontade de conhecer a medicina endocanabinoide. A partir das experiências em casa, fui direcionando meus estudos e minha atuação cada vez mais para a saúde mental.
Em 2020, comecei a pesquisar, estudar artigos, fazer cursos para entender como poderia utilizar a Cannabis medicinal na prática clínica. Nunca tive preconceito; minha pergunta era outra: queria saber se funcionava e de que maneira poderia ajudar meus pacientes. De médica a paciente Quando comecei a prescrever, já havia estudado bastante e me sentia segura.
Sabia também que, como qualquer medicamento, a Cannabis poderia não funcionar para todos e que algumas pessoas poderiam não se adaptar. A prática foi me mostrando suas possibilidades. Passei a acompanhar pacientes em tratamento para diferentes questões, principalmente relacionadas à ansiedade, irritabilidade, sono, dor e processos inflamatórios.
E, conforme observava os benefícios em alguns deles, comecei a olhar também para dentro de casa. Meu filho está no espectro autista, nível 1 de suporte, e faz uso contínuo de Cannabis medicinal. No caso dele, percebi principalmente uma redução da ansiedade e da irritabilidade, sintomas que podem interferir bastante na qualidade de vida e no cotidiano.
É uma mudança que percebo de forma muito concreta. Depois, eu também me tornei paciente. Tenho fibromialgia, uma condição crônica marcada principalmente por dor generalizada, que pode vir acompanhada de fadiga e alterações do sono. Recorro ao óleo nos períodos de crise, geralmente por alguns dias, e já utilizei em episódios de enxaqueca. Em casa, não substituímos os medicamentos convencionais pela Cannabis.
Usamos em conjunto, quando necessário. Acho importante dizer isso porque nunca enxerguei a medicina endocanabinoide como algo que precisa ocupar o lugar de tudo o que já existe. Para mim, é mais uma ferramenta de cuidado. Vi pacientes conseguirem se comunicar melhor Algumas experiências no consultório me marcaram especialmente.
Já acompanhei pacientes com muita ansiedade e agitação psicomotora que tinham dificuldade até para se concentrar e estabelecer a comunicação. Depois da introdução do canabidiol, em alguns casos, percebi que, mais tranquilos, conseguiam focar e se comunicar melhor. Não é que o canabidiol simplesmente tenha feito uma criança começar a falar.
O que observei foi outra coisa: quando conseguimos controlar melhor a ansiedade e a agitação, alguns pacientes passaram a ter melhores condições para se expressar, seja pela fala ou por formas de comunicação alternativa.
Também acompanhei casos de crises convulsivas que não apresentavam respostas aos tratamentos anteriores e que tiveram melhora depois da introdução de formulações à base de Cannabis, associadas ou não a outras medicações. São experiências que me ensinaram muito como médica. Uma coisa é estudar um tratamento.
Outra é acompanhar de perto o que uma mudança representa no cotidiano de um paciente e de sua família. Cada caso é um caso Apesar da minha experiência positiva com a Cannabis, ela não é automaticamente minha primeira escolha. Avalio o histórico de cada paciente, quais tratamentos já foram tentados, as medicações utilizadas e como ele respondeu a elas.
Também preciso considerar a realidade da família, porque o custo ainda é uma barreira importante. Algumas famílias chegam ao consultório já querendo a medicina endocanabinoide. Outras ainda têm resistência e associam o tratamento ao uso recreativo da maconha. Nesses casos, informação faz muita diferença. Eu explico que estamos falando de um tratamento que exige conhecimento e acompanhamento.
É preciso avaliar qual formulação é adequada para aquele paciente, encontrar a dose e fazer os ajustes necessários ao longo do caminho. Não é simplesmente prescrever Cannabis. É saber para quem, como e por que estamos prescrevendo.
Não é mágica, é tratamento Depois de todos esses anos, talvez essa seja a principal mensagem que eu tenha para outras famílias e também para os médicos: não tenham preconceito, mas também não tratem a Cannabis como uma solução mágica. Não existe receita de bolo. Cada organismo responde de uma maneira e o tratamento precisa ser individualizado.
Principalmente quando falamos de crianças e adolescentes, ele também não substitui o trabalho de uma equipe multidisciplinar e as terapias necessárias. Hoje, a Cannabis faz parte da minha prática médica, do tratamento do meu filho e também do meu cuidado nos momentos em que as crises de dor aparecem.
E viver essa experiência de lugares tão diferentes mudou também a maneira como converso com as famílias que chegam ao consultório cheias de dúvidas e receios. Eu acredito no avanço da medicina canabinoide justamente porque acredito em uma medicina baseada em ciência e acompanhamento responsável.
Ainda precisamos avançar nas pesquisas, ampliar a formação dos profissionais e tornar esse conhecimento cada vez mais acessível. A Cannabis não precisa ser tratada nem com medo, nem como milagre. Precisa ser estudada, compreendida e utilizada com responsabilidade. Quanto mais a ciência avança, menos espaço sobra para o preconceito e mais possibilidades de cuidado se abrem para os pacientes.
Importante Se você deseja entender se a Cannabis medicinal pode fazer sentido para o seu caso, o primeiro passo é contar com acompanhamento médico especializado. Na nossa plataforma de agendamento, você pode marcar uma consulta com profissionais experientes na prescrição de Cannabis medicinal, como a Dra. Viviane Vieira de Carvalho Pereira, para uma avaliação individualizada e segura.
