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Cannabis medicinal e dor neuropática: o que já se sabe

Cannabis & Saúde 24/09/2026 12:03

Setembro também marca o Mês da Conscientização sobre a Dor, iniciativa que busca ampliar a compreensão sobre diferentes tipos de dor e melhorar o cuidado oferecido às pessoas que convivem com essa condição. Em 2026, a International Association for the Study of Pain (IASP), uma das principais organizações dedicadas ao estudo da dor, adotou como lema da campanha quatro palavras: “Understand. Advocate. Partner.

Advance.”, que podem ser traduzidas como “Compreender. Defender. Colaborar. Avançar.” Cada conceito orienta uma semana de atividades. Na primeira, dedicada ao “Understand”, ou “Compreender”, a atenção está voltada especialmente para a dor neuropática, também escolhida como tema do Global Year 2026 da IASP.

A organização pretende ampliar o conhecimento sobre os desafios do diagnóstico e do tratamento, além de identificar prioridades para novas pesquisas. É justamente nesse campo que medicamentos à base de Cannabis têm sido investigados. Estudos clínicos já avaliaram, por exemplo, o uso do canabidiol (CBD) isolado e em combinação com o ∆9-tetrahidrocanabinol (THC) para controlar a dor neuropática.

Por que a dor neuropática é diferente? A dor neuropática ocorre quando uma lesão ou doença afeta o sistema nervoso, responsável por transmitir informações entre diferentes partes do corpo e o cérebro. Ela pode aparecer em condições como neuropatia diabética, lesões na medula espinhal ou danos em nervos.

Para o ortopedista e traumatologista Marcos Dias, um dos principais desafios é fazer o paciente compreender que o tratamento da dor crônica não depende apenas de medicamentos. “O tratamento e o controle dos sintomas relacionados são de cunho multifatorial”, explica. Dr.

Marcos Dias – Ortopedia e traumatologia CRM: 20905/SC | RQE: 12176 Segundo o médico, isso significa que outras medidas podem ser tão importantes quanto os medicamentos. Ele cita fisioterapia, fortalecimento muscular, ganho de flexibilidade, alongamento, controle de peso em pacientes com sobrepeso e controle do estresse.

A própria IASP destaca que fatores físicos, psicológicos e sociais podem influenciar a experiência da dor neuropática. Estratégias que não envolvem medicamentos também podem fazer parte do cuidado. CBD e THC: o que já foi investigado contra a dor Entre as opções pesquisadas para tratar a dor neuropática estão os medicamentos à base de Cannabis.

No entanto, é importante destacar que os produtos podem ter diferentes concentrações de CBD, THC e outros canabinoides. As doses e formas de administração também variam. Um estudo clínico conduzido por pesquisadores australianos, já abordado no Cannabis & Saúde, avaliou 38 adultos com dor neuropática crônica causada por lesão medular. Os participantes receberam CBD isolado ou placebo em diferentes momentos.

A dose começou em 200 mg por dia e aumentou progressivamente até 800 mg. Durante o período com CBD, a redução média da intensidade da dor foi de aproximadamente 14%, contra cerca de 6% com placebo. Cerca de 38% dos participantes alcançaram uma redução da dor considerada clinicamente relevante pelos pesquisadores.

Outro trabalho publicado anteriormente no portal apresentou resultados de um estudo de caso com duas mulheres com dor neuropática crônica que persistia apesar de tratamentos convencionais. Elas receberam cápsulas com quantidades iguais de CBD e THC. Após quatro semanas, ambas relataram redução da intensidade da dor. Também foram observadas melhoras em outros aspectos, como o sono.

Na prática clínica, Dias afirma que vê diferenças conforme o tipo de dor. “As evidências são mais consistentes nas dores neuropáticas. Aquelas dores do tipo choque, formigamento, alterações de sensibilidade e até perda de força ou movimentação”, disse. De acordo com o médico, muitos desses pacientes utilizam produtos que também contêm THC.

Já em casos de dores relacionadas à inflamação, ele relata o uso de produtos ricos em CBD e, em alguns casos, associados ao canabigerol (CBG). A composição ideal, a dose e os pacientes com maior probabilidade de responder aos diferentes canabinoides ainda são questões investigadas pela ciência e podem variar de pessoa para pessoa.

O paciente também participa do tratamento da dor Outro eixo da campanha de 2026 da IASP é “Partner”, ou “Colaborar”. A proposta destaca a importância de incorporar a experiência de quem vive com dor tanto às decisões sobre o tratamento quanto às pesquisas científicas.

Em pacientes com dor crônica, reduzir a intensidade da dor é importante, mas outros aspectos da vida podem ser relevantes, como conseguir dormir melhor, movimentar-se, trabalhar ou realizar atividades cotidianas. IASP promove a campanha do Mês de Conscientização sobre a Dor. Foto: Divulgação.

Efeitos adversos e interações medicamentosas Assim como outros medicamentos, produtos à base de Cannabis podem provocar efeitos adversos. No estudo australiano com altas doses de CBD, os efeitos relatados com maior frequência foram sonolência, náusea, redução do apetite e desconforto abdominal. A maioria foi considerada leve pelos pesquisadores. Produtos com THC podem provocar efeitos psicoativos.

Por isso, a composição e a dose precisam ser avaliadas individualmente. A condição de saúde do paciente e outros medicamentos utilizados também devem ser considerados. As interações medicamentosas são outro ponto de atenção. Os produtos de uso oral podem alterar a forma como determinados medicamentos são processados pelo organismo. Por isso, o acompanhamento profissional é importante. Dr.

Marcos Dias ressalta ainda questões que precisam ser esclarecidas sobre o tratamento a longo prazo. “Conhecemos muitas interações importantes e que devem ser evitadas, mas algumas de uso prolongado da medicação ainda estão um pouco ocultas”, afirma. O que a ciência ainda precisa descobrir A última semana do Mês da Conscientização sobre a Dor é dedicada ao verbo “Advance”, ou “Avançar”.

Para a IASP, isso significa transformar conhecimento em ação, fortalecer a educação sobre a dor e estimular novas pesquisas. Ainda é necessário entender melhor quais pacientes podem responder melhor ao tratamento com canabinoides, quais compostos e formulações são mais adequados, quais doses oferecem melhor benefício e quais podem ser os efeitos do uso prolongado.

Como ter acesso ao tratamento no Brasil No Brasil, a Anvisa autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis com prescrição médica. Pacientes interessados em incluir derivados da planta no tratamento devem buscar orientação especializada. Por meio da plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com profissionais experientes nesse tipo de abordagem.

Créditos: Cannabis & Saúde.